Quando o “sempre foi assim” vira desculpa para explorar animais

Escrito por Artur Caliendo Prado em 17/12/2025

Essa época do ano é uma das mais comuns pra gente ouvir o bom e velho argumento do “é tradição”. Falar sobre veganismo perto do Natal é pedir para ouvir sobre a importância do peru na ceia, assim como ouvimos sobre o porco no Ano Novo, o cordeiro na Páscoa, o churrasco de domingo, ou a feijoada “raiz”. Todos esses costumes costumam ser defendidos não pelo seu significado ético, nem pela necessidade, mas por uma frase simples e poderosa: sempre foi assim.

O problema é que isso não é um argumento. É uma falácia.

O que é a falácia da tradição?

É quando algo é considerado correto ou moral apenas porque é antigo, cultural ou tradicional, o nosso conhecido “isso é bom porque sempre foi assim”.

A história mostra que muitas práticas tradicionais eram profundamente injustas, e só deixaram de existir porque as pessoas começaram a questionar aquela tradição. Escravidão, trabalho infantil, casamento forçado, exclusão de mulheres da vida pública, punições físicas como forma de educação… tudo isso já foi tradição, e foi defendida por pessoas que diziam que era o certo porque sempre foi assim.

O Natal não é sobre comer peru

O Natal talvez seja o exemplo mais claro dessa contradição. Para muitos, o significado do Natal está ligado a valores como compaixão, empatia, amor ao próximo, paz e reflexão. O peru não é símbolo religioso, espiritual ou ético do Natal, é apenas um costume gastronômico que se consolidou com o tempo, especialmente por fatores econômicos, disponibilidade regional e, principalmente, por marketing.

Todo mundo do ocidente fica enfurecido quando fica sabendo sobre o Festival de Carne de Cachorro de Yulin, porque comer cachorros parece um absurdo. Mas isso também não é cultural? Devemos então aceitar, porque eles fazem isso há muito tempo?

E o Natal é só um exemplo. A mesma justificativa aparece em vários outros contextos:

  • “Sempre comemos churrasco em comemorações”

  • “Feijoada faz parte da nossa cultura”

  • “Na Páscoa sempre teve cordeiro”

  • “Rodeio é tradição”

  • “Farra do boi é cultural”

Se há sofrimento animal envolvido, a tradição aparece como escudo moral, mas tradição não transforma violência em necessidade, nem sofrimento em algo aceitável.

Quando alguém usa a tradição para justificar o consumo de animais, a pergunta não deveria ser “Isso sempre foi feito assim?” mas sim “Isso faz sentido hoje, sabendo o que sabemos?”

Hoje sabemos que não precisamos consumir animais para sermos saudáveis, que a exploração animal causa sofrimento evitável, que existem alternativas acessíveis e saborosas, e que nossas escolhas têm impacto real na vida de outros seres.

Assim, manter uma prática apenas porque ela é antiga deixa de ser tradição e passa a ser simplesmente resistência à mudança.

Escolher um Natal sem exploração animal não é acabar com a tradição, é criar uma tradição baseada em coerência entre valores e ações, que não depende da morte de alguém para existir.

Fonte: Substack


Por Artur Caliendo Prado
Programador inveterado, aspirante a escritor e vegano convicto, dando um passo de cada vez em busca de um mundo mais verde.