Quando o “sempre foi assim” vira desculpa para explorar animais
Essa época do ano é uma das mais comuns pra gente ouvir o bom e velho argumento do “é tradição”. Falar sobre veganismo perto do Natal é pedir para ouvir sobre a importância do peru na ceia, assim como ouvimos sobre o porco no Ano Novo, o cordeiro na Páscoa, o churrasco de domingo, ou a feijoada “raiz”. Todos esses costumes costumam ser defendidos não pelo seu significado ético, nem pela necessidade, mas por uma frase simples e poderosa: sempre foi assim.
O problema é que isso não é um argumento. É uma falácia.
O que é a falácia da tradição?
É quando algo é considerado correto ou moral apenas porque é antigo, cultural ou tradicional, o nosso conhecido “isso é bom porque sempre foi assim”.
A história mostra que muitas práticas tradicionais eram profundamente injustas, e só deixaram de existir porque as pessoas começaram a questionar aquela tradição. Escravidão, trabalho infantil, casamento forçado, exclusão de mulheres da vida pública, punições físicas como forma de educação… tudo isso já foi tradição, e foi defendida por pessoas que diziam que era o certo porque sempre foi assim.
O Natal não é sobre comer peru
O Natal talvez seja o exemplo mais claro dessa contradição. Para muitos, o significado do Natal está ligado a valores como compaixão, empatia, amor ao próximo, paz e reflexão. O peru não é símbolo religioso, espiritual ou ético do Natal, é apenas um costume gastronômico que se consolidou com o tempo, especialmente por fatores econômicos, disponibilidade regional e, principalmente, por marketing.
Todo mundo do ocidente fica enfurecido quando fica sabendo sobre o Festival de Carne de Cachorro de Yulin, porque comer cachorros parece um absurdo. Mas isso também não é cultural? Devemos então aceitar, porque eles fazem isso há muito tempo?
E o Natal é só um exemplo. A mesma justificativa aparece em vários outros contextos:
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“Sempre comemos churrasco em comemorações”
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“Feijoada faz parte da nossa cultura”
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“Na Páscoa sempre teve cordeiro”
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“Rodeio é tradição”
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“Farra do boi é cultural”
Se há sofrimento animal envolvido, a tradição aparece como escudo moral, mas tradição não transforma violência em necessidade, nem sofrimento em algo aceitável.
Quando alguém usa a tradição para justificar o consumo de animais, a pergunta não deveria ser “Isso sempre foi feito assim?” mas sim “Isso faz sentido hoje, sabendo o que sabemos?”
Hoje sabemos que não precisamos consumir animais para sermos saudáveis, que a exploração animal causa sofrimento evitável, que existem alternativas acessíveis e saborosas, e que nossas escolhas têm impacto real na vida de outros seres.
Assim, manter uma prática apenas porque ela é antiga deixa de ser tradição e passa a ser simplesmente resistência à mudança.
Escolher um Natal sem exploração animal não é acabar com a tradição, é criar uma tradição baseada em coerência entre valores e ações, que não depende da morte de alguém para existir.
Fonte: Substack
