O ritmo da revolução: esperança em tempos difíceis
A luta pelo direito dos animais muitas vezes faz eu me sentir como em uma montanha russa que, desafiando as leis da física, desce muito mais do que sobe. Damos tudo de nós mesmos para falar sobre isso e fazer com que não-veganos ao menos pensem sobre o assunto, criamos vídeos, imagens, infográficos, artigos e músicas, mas tem dias que olhamos para o mundo ao nosso redor e temos a sensação de que nada muda. Essa desesperança dói porque há urgência e o tempo está passando.
Continuamos porque a dor dos animais é ainda maior, e porque temos esperança, mas não é uma esperança ingênua, é reconhecer que o momento é difícil e ainda assim continuar. Por quê? Porque existem evidências reais de que estamos progredindo (compare como o mundo era uns 20 anos atrás com agora), e porque movimentos sociais transformadores nunca andaram em linha reta. Nunca.
Não estamos sozinhos
Uma coisa que me incomoda, de tempos em tempos, é o sentimento de solidão, de estar gritando com as paredes sem nenhum apoio. O que eu faço é me lembrar, por exemplo, da sensação que senti ao ir ao VegFest, de ver aquela multidão de pessoas que se importam, que se ajudam, que fazem o possível para ajudar os animais. O Veganismo não é um movimento minúsculo, estima-se que certa de 1,1% da população se declara vegana (e algo entre 8% e 10% se declara vegetariana), o que dá 88 milhões de pessoas.
1% parece pouco, é verdade, e o número de ativistas é ainda menor, mas toda luta começa de algum lugar, e o progresso lento costuma ser parte de qualquer transformação social. Movimentos sociais são construídos ao longo do tempo.
O ponto de virada
Parece pouco, mas não estamos tão distantes do ponto de virada. Pesquisas sociais mostram que mudança significativas acontecem quando um percentual pequeno (mas determinado) da população adere a uma causa, porque ela influencia uma porcentagem muito maior de outras que, ainda que não façam parte da luta, se tornam aliados do movimento. Eles podem até nem seguir o que o movimento defende (podem até não serem veganos), mas simpatizam com a ideia e não se oporiam caso uma mudança grande acontecesse.
Estudos sobre resistência civil, por exemplo, dizem que a probabilidade de que a luta gere mudanças acontece quando o grupo que defende a causa atinge cerca de 3,5% da população. E o veganismo tem uma vantagem que muitas outras lutas não têm: ser vegano automaticamente gera um impacto na realidade que queremos mudar. Basta sair com amigos para jantar que o assunto vai surgir à mesa, mesmo que a gente nem faça nada para isso acontecer.
Essa porcentagem não é um número mágico e não existe vitória automática (sabemos bem que a vida é ótima em revidar com socos bem fortes), mas nos ajuda a não perder de vista que não precisamos de maioria absoluta para mudar o mundo, apenas de uma minoria organizada e persistente.
Devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita.
Martin Luther King Jr.
Ainda parece pouco?
É normal, o progresso parece lento (lento demais para os animais, que estão sofrendo hoje), mas todos os movimentos sociais que conhecemos passaram por isso. Nossa luta não é só para reduzir um pouco o sofrimento de alguns animais, mas de criar uma mudança sistêmica que perdure, para que futuras gerações olhem para trás e vejam com horror o que estamos fazendo, assim isso não volta nunca a acontecer. Esse tipo de mudança exige tempo, atenção e adaptação. Ela não começa com grandes mudanças, mas com as escolhas que nós, pessoas comuns, fazemos dia após dia.
Esse desânimo não é sinal de fracasso, é sinal de que nos importamos com o que fazemos. Enquanto houver pessoas dizendo “E se fizéssemos diferente?” e agindo com compaixão e coragem, a mudança continuará acontecendo.
Fonte: Substack
