O que o vento leva…
Um mugido longe.
Um som de ferro batendo.
Um cheiro quente de sangue e palha.
A vaca não entende —
só sente o bezerro levado,
o úbere pesado,
o vazio crescente.
O porco grita como gente.
E é gente, se pensar direito:
tem medo,
tem dor,
tem pressa de sair dali.
As galinhas —
todas iguais,
todas vivas demais
pra caber num galpão.
E a criança na mesa
aprende a não ver,
a dizer que é normal,
que é preciso comer.
Mas à noite,
no silêncio da cozinha,
a alma da terra chora baixo:
mugido, cacarejo, grunhido —
tudo misturado.
E o vento leva.
Leva pra longe.
Pra onde ninguém quer ouvir.
Fonte: Substack
0
