Nutricídio não é um erro, é uma arma

Escrito por Artur Caliendo Prado em 05/11/2025

Já reparou que é mais barato comprar salgadinhos, ou miojo, do que frutas, legumes ou verduras? É mais barato comprar um saco de fofura do que um maracujá, ou uma trakinas de morango do que um morango. Ir ao mercado se tornou uma luta financeira, mas e se essa luta não for apenas sobre inflação ou “escolhas pessoais”?

Existe um sistema vigente que determina quem pode se alimentar bem, e quem fica refém do que estiver mais barato, um que, via de regra, prejudica principalmente populações pobres, negras e periféricas. Esse sistema não é acidental, é um projeto que chamamos de nutricídio.

O termo “nutricídio” foi cunhado nos anos 90 pelo Dr. Llaila O Afrika, autor do livro Nutricide: The Nutritional Destruction of the Black Race, que **nos oferece uma chave para entender como a má nutrição é sistematicamente imposta a certas comunidades. Esse sistema prende comunidades vulneráveis nos chamados “pântanos e desertos alimentares”, áreas saturadas de opções alimentares ruins, e isso acaba por definir a nossa paisagem alimentar: quem tem menos dinheiro é frequentemente forçado a comer a pior comida. Isso acontece porque os produtos industriais e ultraprocessados se tornaram mais baratos do que os alimentos in natura (inteiros, não processados) e frescos.

Quando até frutas e verduras básicas se tornam inacessíveis, a indústria alimentícia não apenas empurra alternativas ultraprocessadas, ela encontra novas maneiras de lucrar com o desespero, reembalando o que antes era considerado lixo. Carcaças de frango e soro de leite são ótimos exemplos disso como produtos isolados para consumo humano.

Um breve parênteses sobre o whey

Já que falamos em soro de leite, quero me alongar um pouco sobre o whey. Hoje em dia criou-se um mito pervasivo sobre a proteína, como se precisássemos de uma quantidade inatingível dela ao longo do dia. Já notou como quase toda embalagem faz questão de mencionar que o produto contém proteína, mesmo que a quantidade seja ínfima?

Isso aconteceu quando entrou em jogo, mais uma vez, a famigerada indústria do leite, porque, é claro, o lucro deles gerado explorando os animais não humanos não é o bastante. O whey protein nada mais é do que o soro do leite, o líquido que sobra após a fabricação do queijo. Durante muito tempo, as indústrias de laticínios consideravam esse resíduo um problema ambiental, porque ele é altamente poluente se descartado de forma incorreta (rico em lactose e proteínas, consome muito oxigênio dos rios e mata peixes). Ele era, literalmente, lixo industrial.

É então que entra em cena o marketing da suplementação: o produto passou a ser vendido como essencial para a saúde, performance, emagrecimento e ganho de massa muscular, mesmo quando a maioria das pessoas já consome proteína suficiente na alimentação normal. Essa transformação de resíduo barato a produto premium é um exemplo de reembalagem de lixo industrial em produto de luxo.

Aqui estão alguns dos “benefícios” reais dele:

  • É altamente processado, muitas vezes com adoçantes, corantes e aditivos artificiais.

  • Pode causar problemas digestivos, especialmente para pessoas com intolerância à lactose ou sensibilidade às proteínas do leite.

  • Há questionamentos sobre o impacto de um consumo excessivo de proteínas animais (incluindo do soro) na função renal e inflamação do corpo.

Se você quer mesmo suplementar proteína, opte pela versão vegetal: existem proteínas isoladas de arroz, de soja, de ervilha… e de quebra você não estará contribuindo para a exploração das vacas.

A resistência

Essa prática de reaproveitar lixo e vender revela uma lógica predatória embutida no sistema alimentar: a fome não é vista como uma crise a ser resolvida, mas como uma oportunidade de mercado a ser explorada. Ela extrai ativamente o lucro dos mais vulneráveis, reembalando seus subprodutos de pior qualidade para aqueles que não têm outra escolha.

A resposta que temos contra isso é o veganismo popular. Ao contrário do veganismo mainstream (ou o veganismo liberal), que é impulsionado pelo mercado e que mantém o preço dos alimentos altos (já que o foco é sempre o lucro das empresas), o veganismo popular é um ato político, acessível e anticapitalista. Ele é construído sobre os princípios da consciência de classe, soberania alimentar e empoderamento comunitário. Estamos falando de agroecologia, de hortas urbanas, de políticas públicas de alocação de subsídios para a agricultura familiar de alimentos orgânicos (chega de colocar dinheiro nas mãos do agro e abaixar o preço da carne de forma artificial). Precisamos resgatar a alimentação baseada em plantas como uma ferramenta para alcançar a justiça social e ambiental.

Temos o direto de retomar a vida e a autonomia de um sistema que lucra com a doença, é um ato político reclamar nossa saúde e nosso futuro.

O nutricídio não é um acidente — é uma escolha política e econômica. Enquanto vendem doenças como conveniência e lixo como luxo, tentam nos convencer de que saúde é privilégio individual. Mas saúde é coletiva. E se o sistema nos adoece, resistir passa a ser um dever.

Resistir é plantar, cozinhar, compartilhar. É apoiar quem produz de forma justa, é recusar o mito da proteína como fetiche e enxergar o alimento como vínculo — com a terra, com os animais e com as pessoas.

Não há saúde possível em um mundo que lucra com a morte. E não há futuro sem que a gente reconstrua, desde o prato, uma forma diferente de existir.

Fonte: Substack


Por Artur Caliendo Prado
Programador inveterado, aspirante a escritor e vegano convicto, dando um passo de cada vez em busca de um mundo mais verde.