Jaulas maiores não são liberdade
Imagine você ir tomar um café com amigos e alguém dizer “não precisávamos ter abolido a escravidão, era só ter garantido que eles tivessem mais espaço, menos dor e um tratamento mais humano”.
Ignore a improbabilidade desse assunto surgir em um bate-papo informal e me diga: como você se sentiria com essa proposição um tanto… absurda?
Acredite, esse tipo de proposta existiu, e era considerada “progressista”. Ela não só existiu, mas ainda existe, porque é isso que muita gente defende em relação aos animais. Grande parte das campanhas atuais - e mesmo dos argumentos que carnistas usam para justificar o carnismo - pede gaiolas maiores, abate mais “humanitário” ou selos de bem-estar.
Muita gente não gosta quando comparamos o que fazemos com os animais com a escravidão. Ao invés de gastar meu tempo mostrando por que o paralelo é bastante válido, vou apenas dizer que essa luta por “minimizar o problema” ao invés de acabarmos com ele aconteceu em vários outros movimentos sociais, e que hoje olhamos com horror para a tentativa de “humanizar” ou “diminuir” o problema para que pouco mudasse para a classe dominante.
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Trabalho infantil: durante a revolução industrial, houve um esforço real para reduzir as horas de trabalhos de criança, exigir idade mínima (ainda que a mínima sugerida fosse baixa) e melhorar segurança e ventilação das fábricas.
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Apartheid e segregação racial: houve propostas para tornar a segregação “mais justa”, garantir melhores serviços (ainda separados) ou suavizar algumas das restrições mais severas.
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Direito das mulheres: antes do sufrágio feminino (e ouso dizer que talvez ainda hoje), algumas correntes defendiam que as mulheres votassem apenas em eleições locais, ou participassem da política apenas de forma indireta, mantendo a “tutela” masculina.
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Punições corporais: ao invés de proibi-las, a discussão girava em torno de punições corporais “mais moderadas”, sobre qual instrumento usar, sem enfrentar a estrutura da violência.
Se é errado tratar alguém como propriedade, por que a discussão é sobre o tamanho da jaula, e não sobre sua existência?
Não existe “melhorar a exploração” aos poucos porque isso pouco significa para quem é explorado. Se estivessem explorando você, você ficaria grato por diminuírem sua carga de 16 para 12 horas de trabalho? Ou ainda lutaria por sua liberdade?
Quem é oprimido quase não tem força para lutar, porque todo o sistema está contra ele, e isso é ainda pior no caso dos animais, que não podem lutar por si mesmos. Antes que venham com o argumento de “animal dominante” ou “temos domínio sobre os animais”, se somos assim tão superiores, deveria ser nosso dever moral cuidar dos que estão sob nosso jugo, não tiranizá-los.
Chega de discutirmos sobre melhorar a exploração e vamos falar sobre parar de explorar. Essa é a posição abolicionista que devemos tomar. Animal não é recurso, mas um ser senciente capaz de ter uma experiência subjetiva da vida, alguém com desejos, medos e preferências.
Mudanças pelo “bem-estar” servem apenas para aliviar a consciência das pessoas, para fazer com que se sintam menos culpadas por participar de algo sórdido, e reforçam a ideia de que existe uma forma aceitável de explorar.
Vamos tentar tornar a exploração menos cruel, ou questionar o direito de explorar?
Fonte: Substack
