Entre a compaixão e a crueldade: quem é realmente extremo?
Seria mais um dia comum, voltando do horário de almoço com colegas de trabalho, se não fosse por um pequeno detalhe: naquela semana, eu havia decidido que não iria mais comer carne. Eu já vinha vislumbrando dar esse passo há algum tempo, mas senti que já havia passado da hora, e ainda que não fosse a mudança que eu realmente deveria ter feito para alinhar minha moral com as minhas ações (naquele momento, eu iniciava uma alimentação ovo-lacto vegetariana ao invés de abraçar o veganismo - um assunto que eu quero abordar com mais calma uma outra hora), eu tinha que dar algum passo e naquele momento minha dissonância cognitiva me convenceu de que era o bastante para começar.
Eu havia tomado aquela decisão e o fiz de forma pública, então não foi uma surpresa quando alguns questionamentos começaram a surgir. Eu não iniciei nenhuma daquelas conversas, não estava tentando convencer ninguém de nada e não sentia que tinha o conhecimento necessário para entrar em uma argumentação mesmo se eu tentasse. Em meio a uma enxurrada de comentários e opiniões, houve uma frase que ficou marcada de forma mais vívida nas minhas lembranças. Foi algo mais ou menos assim:
Eu entendo comer menos carne, mas sou contra o veganismo, acho que todo extremo é ruim
Entre as muitas desculpas que as pessoas começaram a dar, voluntariamente, para explicar por que, no caso delas, elas continuariam a comer carne, essa, em particular, me causou um incômodo. Eu não era vegano, ela havia se posicionado “do meu lado” em relação a não comer mais carne, e ainda assim… Por que aquele desconforto?
Sem perceber, eu já sabia. Ainda estava dormente, lá no fundo, ainda que eu não soubesse o que fazer com aquilo, eu só preferia não ver. Não me lembro bem o que eu respondi na época, acho que eu nem disse nada, afinal, o comentário não tinha sido feito diretamente para mim.
Hoje eu consigo articular melhor o que eu senti, e o porquê de ter sentido aquilo. Mesmo que eu concordasse com ela sobre todo extremo ser ruim (não concordo), a premissa toda era problemática. Caímos, na melhor das hipóteses, em uma falácia lógica, e, na pior, em um sofisma. O problema intrínseco daquela frase começa no entendimento da palavra extremo.
Do dicionário Michaelis:
Extremo: Que ultrapassa o limite do que é considerado razoável; exagerado, excessivo
De um lado, temos uma visão de mundo em que os animais não são commodities, não existem apenas pelo uso que podemos fazer deles, e não são submetidos às mais horrendas formas de exploração. Como todos os seres sencientes, eles têm o direito de ser.
Do outro, temos o que é tido como “normal”. Fêmeas inseminadas à força tendo seus bebês tirados delas, um processo que é repetido à exaustão até seus corpos sucumbirem. Filhotes mortos porque não servem para o mercado em que estão inseridos, às vezes triturados com um dia de vida, às vezes mortos com seis meses em câmaras de gás. Debicamento. Uso intensivo de antibióticos de forma preventiva. Aglomerações desumanas. Mutilações, às vezes sem anestesia. Manipulação genética. Confinamento extremo. A lista é longa…
A resposta que eu gostaria de ter dado, simples e objetiva, se pudesse voltar no tempo:
Certo, mas qual dos lados é o extremo?
Como somos capazes de tal malabarismo intelectual para não termos que mudar nosso estilo de vida? Construímos um muro alto para não termos que pensar no que está do outro lado, não queremos refletir se o que estamos fazendo é cruel porque não queremos perceber que somos o vilão dessa história. Quando algo confronta nossa visão de mundo, qualquer argumento serve, mesmo que não sirva. O importante é não nos forçar a olhar do outro lado do muro.
Gostaria de ter sido mais… Socrático. Mais incisivo. Aquela frase que me fez questionar minhas escolhas poderia ter servido de alavanca para a reflexão. Confrontar pessoas nunca é fácil, ainda mais pessoas de quem gostamos, mas é necessário e urgente. E esse é o principal motivo de eu ter decidido, depois de tanto tempo, a começar esse Substack. Quero falar sobre isso, expor meus pensamentos e trazer as problemáticas à tona para que possamos refletir sobre elas.
Essas conversas são importantes, mas as pessoas vão entender o problema e mudar de atitude automaticamente, não é assim que funciona. Não acreditamos no que ouvimos, mas naquilo que pesquisamos, naquilo que falamos, e se algum dia uma conversa sobre veganismo fez alguém se tornar vegano no ato, eu desconheço. Deve ter acontecido, mas é muito pouco provável. Sei como nossa mente funciona quando discutimos sobre a crueldade que fazemos com os animais, fiz isso por 37 anos. Às vezes é preciso tempo, reflexão, pesquisa. Tudo o que podemos fazer é plantar uma semente, trazer à luz um questionamento que pode colocar à prova alguma certeza que pensávamos ser inabalável.
Nem toda resposta é fácil, mas cada pergunta importa. Hoje, no Dia do Vegetarianismo, me pareceu promissor compartilhar meu primeiro post aqui. Qual é a sua posição diante do que chamamos de ‘normal’? Que mudanças você acredita que valem a pena fazer?
Fonte: Substack
