É normal, é natural, é necessário
Se você já conversou com alguém sobre veganismo, aposto que já ouviu essas três palavras mágicas: normal, natural, necessário. Talvez não tenha ouvido todas, ou tenha ouvido outras palavras com o mesmo significado, mas é muito provável que elas tenham aparecido na argumentação em defesa de usar os animais como recursos.
Este tipo de argumentação foi usado incansavelmente ao longo da história para defender o status quo:
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É natural que a mulher fique em casa e o homem vá trabalhar
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A colonização é um processo natural, povos mais avançados têm que disciplinar os mais atrasados
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É normal que existam pobres e ricos, eles sempre existiram
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É necessário aceitar as desigualdades para que a economia funcione
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É necessário reprimir quem questiona para manter a ordem
Transformar qualquer argumento em normal, natural ou necessário parece blindá-lo de qualquer questionamento, e é por isso que é um recurso tão utilizado. Mas será que esses argumentos se sustentam?
Algo ser comum o torna automaticamente certo? Consegue pensar em coisas que eram tidas como “normais” no passado e que hoje abominamos?
Natural é algo que vem da natureza. A nossa moralidade, contudo, deve ser baseada no que acontece na natureza? Se os leões matam seus filhotes, então devemos fazê-lo também? Além disso, sabe o que mais é natural? Doenças. O que há de natural na agropecuária de hoje?
E será mesmo que é necessário? Além disso, é necessário para quem? É o tipo de frase que quase sempre vem da boca do opressor.
Essa tríade do normal, natural e necessário foi condensado em um modelo chamado de “os 3 Ns”. Esse conceito foi popularizado pela psicóloga social Melanie Joy, autora do livro Por Que Amamos Cachorros, Comemos Porcos e Vestimos Vacas (Why We Love Dogs, Eat Pigs, and Wear Cows), ao estudar como as pessoas justificam o consumo de animais dentro do sistema que ela chama de carnismo.
Quando olhamos de perto, os 3 N deixam de ser justificativas sólidas e passam a ser apenas hábitos não questionados.
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Normal é só o que estamos acostumados
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Natural não define o que é ético
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Necessário não se sustenta com o conhecimento atual
O veganismo surge justamente desse questionamento:
Se não é necessário, e causa sofrimento, por que continuar?
O que temos como “normal” nada mais é do que as coisas como fazemos há algum tempo, mas essas coisas mudam ao longo da história. À medida que aprendemos, mudamos o que fazemos e no que acreditamos, e não podemos ignorar a senciência dos animais. Somos contra cultura que comem carne de cachorro, não somos? Mas lá eles vão argumentar que isso é normal. Dizer que algo é normal pode justificar qualquer coisa, não importa o quão violenta ela é.
Vermos os animais como commodities e usarmos seus corpos e seus insumos não é necessário, temos evidências científicas sólidas e numerosas de que podemos viver, e viver bem, à base de plantas. E não há nada de natural em aprisionar bilhões de animais em espaços minúsculos, tirar a vida de filhotes com poucos anos de vida porque não geram lucro, matar em câmaras de gás, engravidar à força e tirar o bebê da mãe logo em seguida para ficarmos com seu leite…
Cada escolha importa. É nosso dever moral questionar o que fazemos, esse é o único modo de crescermos como espécie.
Fonte: Substack
