Comer carne para salvar o planeta? A ciência desvenda 5 mitos da pecuária regenerativa

Escrito por Artur Caliendo Prado em 26/11/2025

Essa é uma daquelas ideias que são, ao mesmo tempo, paradoxais e atraentes: “coma mais carne para salvar o planeta”. Popularizada por figuras como o pecuarista Allan Savory e amplificada por documentários influentes, essa narrativa sugere que uma forma específica de manejo, conhecida como pecuária regenerativa, poderia reverter a desertificação, restaurar a saúde do solo e combater as mudanças climáticas ao imitar os padrões de pastoreio de herbívoros selvagens.

Essa solução mágica permite que a gente continue com nossos hábitos de consumo enquanto, supostamente, curamos o planeta ao sequestrar carbono da atmosfera. A popularidade tem crescido porque oferece uma resposta simples para um problema complexo.

Mas o que a ciência realmente diz sobre isso? Quando as alegações ousadas do manejo holístico são colocadas sob o rigor da pesquisa científica, a promessa sedutora começa (como sempre) a se desintegrar.

A pecuária regenerativa remove mais carbono do que emite?

A alegação central é que o manejo holístico pode sequestrar carbono suficiente para compensar totalmente as emissões de metano e outros gases de efeito estufa produzidos pelo gado.

A Realidade: embora certas práticas possam aumentar o carbono no solo, isso não é suficiente para neutralizar o impacto dos próprios animais. Uma extensa revisão de dois anos, intitulada Grazed and Confused, analisou mais de 300 fontes. A conclusão: na melhor das hipóteses, o pastoreio bem manejado poderia compensar apenas de 20% a 60% das emissões totais do gado.

Isso significa que, mesmo no cenário mais otimista, a pecuária regenerativa continua sendo uma fonte líquida e significativa de gases de efeito estufa, contradizendo a alegação fundamental de ser uma solução climática.

O solo pode absorver carbono indefinidamente?

A lógica da pecuária regenerativa falha ao supor que o solo tem uma capacidade ilimitada de armazenamento de carbono.

Pesquisas mostram que os solos operam sob um princípio conhecido como equilíbrio de carbono do solo. Após algumas décadas de práticas de sequestro, o solo fica saturado e não consegue mais absorver carbono adicional. Nesse ponto de equilíbrio, o carbono que entra é balanceado pelo carbono que sai. Consequentemente, nenhuma das emissões contínuas produzidas pelo gado seria mais compensada, tornando o manejo holístico uma estratégia ineficaz a longo prazo para mitigar as mudanças climáticas.

É uma solução escalável para a alimentação global?

O que estão sugerindo com isso é que podemos alimentar o mundo com carne de animais criados no pasto, mas os números sobre o uso da terra e o rendimento de proteínas contam uma história diferente.

Atualmente, os sistemas de pastoreio de gado já ocupam 26% da superfície terrestre do nosso planeta. Apesar dessa vasta ocupação, animais alimentados exclusivamente com pasto fornecem apenas 1 grama de proteína por pessoa por dia globalmente, e todos os outros sistemas de criação de animais terrestres fornecem 26 gramas.

A matemática não é tão difícil: expandir um sistema que já ocupa um quarto das terras do planeta para produzir uma fração mínima de nossa proteína é ecologicamente inviável.

As alegações são baseadas em ciência robusta?

A base científica do manejo holístico é notavelmente fraca, apesar das alegações grandiosas. Uma análise da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, revisando os estudos citados no próprio site de Allan Savory, descobriu que muitas das fontes eram puramente anedóticas e os efeitos relatados em outras eram pequenos.

O ceticismo da comunidade científica é generalizado, como afirmado em uma publicação no International Journal of Biodiversity: “...os principais cientistas especializados em pastagens refutaram o sistema e indicaram que sua adoção... é baseada em anedotas e princípios não comprovados, em vez de evidências científicas.”

O próprio Savory, quando confrontado com as crescentes críticas, revelou um profundo desprezo pela metodologia que alega seguir: “você descobrirá que o método científico nunca descobre nada.”

Essa é a melhor estratégia que temos para regenerar a terra?

A afirmação de que a pecuária regenerativa é a melhor ferramenta para a saúde do solo ignora alternativas comprovadamente superiores. O relatório Drawdown, citado no documentário Kiss the Ground, mostra que a mudança para uma dieta baseada em vegetais é quatro vezes mais poderosa em seu potencial de captura de carbono do que a pecuária manejada.

Além disso, a remoção do gado, em vez de sua adição, demonstrou ser mais benéfica. Um estudo de pastagens na China relatou que os níveis de carbono eram até 157% mais altos em pastagens livres de gado do que nas pastoreadas. O pastoreio causa compactação do solo e perturba a crosta biológica do solo, que a ciência mostra que, na verdade, estabiliza o solo, aumenta a matéria orgânica e absorve água. Sua destruição leva ao aumento da erosão e à redução da fertilidade.

Imitando a natureza ou apenas deixando-a ser?

Embora a necessidade de melhorar a saúde do solo seja um objetivo crítico, as evidências mostram que o manejo holístico é uma distração perigosa das soluções climáticas comprovadas. As alegações não se sustentam, os benefícios são superestimados e os danos, ignorados.

A ciência aponta para estratégias mais eficazes: restaurar ecossistemas e adotar sistemas alimentares baseados em plantas.

Se o objetivo é imitar a natureza, por que não simplesmente devolver a terra à natureza, reflorestando e restaurando ecossistemas, em vez de continuar a usá-la para a pecuária?

Fonte: Substack


Por Artur Caliendo Prado
Programador inveterado, aspirante a escritor e vegano convicto, dando um passo de cada vez em busca de um mundo mais verde.