A falácia do Nirvana
Ainda que não seja a primeira arma no arsenal dos carnistas, a falácia do nirvana ainda é muito usada quando conversamos com alguém (não vegano) sobre veganismo, principalmente se os argumentos que estão usando começam a cair por terra, um a um. Ele aparece naquele ponto em que parece mais fácil se desfazer do veganismo de forma genérica do que de fato refletir sobre o que está sendo discutido.
Insetos e roedores morrem nas plantações, os veganos também estão matando os animais
Os veganos, esses hipócritas, não é mesmo? Vamos pegar toda essa conversa e jogar fora, afinal de contas, o veganismo não é perfeito.
Digamos que o veganismo é, sei lá, 80% perfeito (seja lá o que isso quer dizer, mas continuem comigo só mais um pouquinho). O que a pessoa está dizendo é que 80 não é 100 e, portanto, ele não é aceitável, então vamos continuar tudo como está, com a solução que é 0% perfeita.
O primeiro passo, antes de surtar, é deixar claro que o veganismo não é mesmo perfeito e que ninguém está dizendo que é. Animais morrem mesmo nas plantações, e isso é algo que precisa ser melhorado com pesquisa e investimento, mas:
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O sistema atual, onde animais morrem por acidente nas plantações, não foi desenhado por veganos e nem com os animais em mente. Por que isso é um argumento contra o veganismo, e não contra o sistema vigente que criou isso da maneira que é?
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Cerca de 80% das plantações são destinadas a alimentar os animais que matamos para comer. Se pararmos de explorar os animais, uma fração muito grande dessas plantações pode ser reflorestada ou usada para outros fins, diminuindo drasticamente a morte acidental de insetos, roedores e pequenos animais.
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Estamos mesmo comparando mortes acidentais com mortes intencionais desnecessárias?
A questão toda gira em torno da imperfeição da solução proposta pelo veganismo: se não vamos salvar absolutamente todos, então não vamos nem começar. Cria-se uma falsa dicotomia, onde qualquer solução é comparada com a solução perfeita inatingível (o nirvana) e, portanto, é descartada.
Toda luta social acontece em etapas, nada muda de uma hora para a outra, em um estalar de dedos. Se só aceitarmos soluções perfeitas, nada nunca vai mudar. Nenhuma das lutas sociais que vencemos na história da humanidade seriam possíveis com essa postura. Esse tipo de falácia serve para estagnar o debate e justificar a manutenção do status quo ao tornar qualquer solução plausível automaticamente “inútil”, só porque não é totalmente perfeita.
O veganismo é um compromisso prático e ético para um mundo melhor, não para um mundo utópico. Aperfeiçoar o mundo é um processo contínuo. Não deixe que o mito da perfeição seja o obstáculo para o progresso real e o alívio do sofrimento animal.
Fonte: Substack
