A carne que "fez" nosso cérebro
“Foi comendo carne que nosso cérebro cresceu!” - diz fulaninho, toda vez que a conversa sobre o que comemos começa a ficar incômoda. Mas será isso mesmo, ou isso é uma espécie de álibi moral, uma justificativa naturalista para o consumo (e exploração) atual de animais? Essa narrativa simplifica demais a complexa tapeçaria da nossa história evolutiva, e o que aconteceu no passado não deveria ditar nosso código moral de hoje em dia.
Quando pesquisadores investigam o aumento do volume cerebral em nossos ancestrais, raramente apontam um único herói alimentar. A verdade é sempre mais matizada. O crescimento cerebral parece ser o resultado de um mosaico de fatores interligados: mudanças na dieta, sim, mas também no corpo, no comportamento social, no desenvolvimento de ferramentas e na cooperação.
Um dos argumentos mais fortes na literatura científica recente é que a verdadeira virada de jogo não foi “comer carne”, mas sim “cozinhar comida”. O fogo e a capacidade de cozinhar transformaram drasticamente a disponibilidade energética dos alimentos. Cozinhar torna alimentos duros, fibrosos ou até tóxicos mais digestíveis e, o mais importante, mais energéticos. Isso se aplica tanto à carne quanto a tubérculos, raízes, grãos e outros vegetais ricos em carboidratos. Nosso cérebro é um órgão super faminto, consumindo 20-25% de toda a energia do corpo em repouso, e sua principal fonte de combustível é a glicose.
Quando nossos ancestrais passaram a cozinhar tubérculos e outros alimentos vegetais, eles aumentaram drasticamente a quantidade de energia disponível por unidade de tempo de mastigação e digestão. Essa eficiência energética pode ter sido um fator decisivo para sustentar um cérebro em crescimento.
Mas talvez nada disso importe. Mesmo que concedêssemos, por hipótese, que comer mais carne tenha sido crucial para a sobrevivência de nossos ancestrais em um contexto de escassez e risco, isso não responde à pergunta “O que devemos fazer agora?”.
Temos que tomar muito cuidado para não cair em na clássica falácia naturalista: a ideia de que, porque algo é ou foi de certa forma na natureza, então deve ser moralmente correto. Consegue pensar em outros comportamentos ancestrais que foram relevantes no contexto da época? A violência entre grupos, hierarquias sociais rígidas, o abandono de indivíduos considerados fracos… eles ainda são válidos hoje?
Para pensar:
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Se nosso cérebro já se desenvolveu, faz sentido continuar repetindo práticas que talvez tenham sido úteis num passado de sobrevivência extrema, mas que hoje causam sofrimento massivo e dano ambiental em escala industrial?
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Se hoje conseguimos obter energia e nutrientes necessários de fontes vegetais, suplementos e tecnologias alimentares modernas, qual é exatamente a necessidade de continuar matando bilhões de animais?
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Por que certos comportamentos ancestrais (guerra constante, dominação brutal, discriminação) são vistos como algo a superar, enquanto o consumo de carne é romantizado como “tradição” ou “natureza humana”?
Se comer carne teve algum papel em nossa história evolutiva, talvez isso só torne o contraste mais forte: justamente porque temos cérebros grandes e capazes de reflexão moral, podemos escolher não usar nossa inteligência para justificar a continuação de práticas que já não são necessárias, e que cobram um preço altíssimo dos animais, do planeta e de nós mesmos.
Fonte: Substack
